terça-feira, 17 de junho de 2008

Nação Hip Hop Brasil: 111 velas homenageiam mortos no Massacre do Carandiru

Na noite desta sexta-feira (13), as lideranças do Nação Hip Hop Brasil, presentes no 14º Congresso da UJS (União da Juventude Socialista) – que acontece até domingo (15) no Parque da Juventude da capital paulista – realizou o primeiro ato de homenagem aos presos assassinados no Massacre do Carandiru. Ao som de Diário de um Detento, dos Racionais MC’s, eles denunciaram as condições de vida da juventude que vive nas periferias do Brasil e apontaram o socialismo como saída para essa realidade.
O Massacre do Carandiru, promovido pela tropa de choque da Polícia Militar de São Paulo, ocorreu em 1992 e deixou pelo menos 111 presos mortos do complexo penitenciário Carandiru, segundo dados da PM. Após o massacre, o complexo foi implodido e no lugar foi construído o Parque da Juventude, onde acontece o congresso da UJS.

Para lembrar a data e homenagear os mortos no massacre, a Nação ascendeu 111 velas em frente ao prédio onde acontece o congresso da UJS. Emocionados, 111 jovens seguraram cada uma das velas, cantaram rap e destacaram a falta de oportunidades como um dos fatores decisivos para levar a juventude das periferias e favelas brasileiras ao crime.

“Quantos de nós já não vimos um companheiro ser preso por ter roubado um tênis, em função da propaganda consumista do sistema. Quantas vezes não nos deparamos com amigos que foram parar nos presídios e saíram ainda mais incentivados a viver no crime. Por isso estamos aqui, porque acreditamos em outro futuro, um futuro socialista”, disse o presidente da entidade, Aliado G, do grupo de rap Face da Morte.
Marcelo Buraco, liderança comunitária de Santo André, destacou a coragem da juventude socialista de promover pela primeira vez, desde 92, um ato de homenagem aos assassinados.

“Só mesmo a UJS e a Nação Hip Hop Brasil poderiam vir aqui, nesta sexta-feira 13, homenagear aqueles que aqui morreram em função da repressão do sistema. Só mesmo essa juventude e todo seu humanismo para empunhar a bandeira da justiça, da liberdade e do direito de sonhar que foi duramente ceifado pelo sistema repressivo do capitalismo neste triste episódio do Carandiru”, falou.

Rap é a saída

O presidente da Nação-SP, Mano Oráculo, e vocalista da banda Maloca, lembrou o cotidiano dos presos que ali tombaram.

“Aqui, onde agora estamos pisando e realizando esse grande congresso, está o sangue de muitos jovens e homens que foram vítimas do capitalismo. Essa homenagem, mais do que marcar a data, serve para honrarmos esse sangue revigorando a nossa luta, que deve ser cada dia mais combativa, em defesa de um novo Brasil, em defesa da revolução”, agregou.
Em lágrimas, Mano Oxi, MC do grupo DNA e presidente da Nação-RS, destacou a realidade da juventude nas periferias hoje.

“Quem aqui vive ou conhece as periferias desse país sabe que para a juventude excluída, muitas vezes, o único futuro é a cadeia. Estamos aqui para provar que o contrário é possível. O rap pode ser uma saída, uma alternativa à exclusão que sofremos todos os dias e a cada momento das nossas vidas. Nossa missão é apresentar essa possibilidade, é dar voz à juventude que quer alterar essa rota”, concluiu.

As centenas de jovens presentes panfletaram o jornal da Nação Hip Hop Brasil aos passantes que passaram pelo Parque. “Essa lógica perversa do capitalismo que impregna a sociedade com o individualismo e o consumismo é meticulosamente pensada e elaborada pela elite que também faz esse extermínio da população pobre quando quer esvaziar o papel do Estado nos deveres e direitos do povo e apenas mantendo a repressão”, diz o texto do jornal.

A Nação ainda informou que pretende fazer mais atos como o que foi feito na noite de sexta e também atos nacionais. O objetivo é denunciar a realidade dos presídios no país, reivindicar melhorias na política penitenciária para garantir a recuperação dos presos e a sua real integração à sociedade.

Eles terminaram o ato ao som de Diário de um detento e reivindicaram mais políticas públicas de e para a juventude, como acesso à educação, ao lazer, à cultura e ao esporte. “Somente com políticas públicas sérias de, para e com a juventude superaremos esse triste capítulo da humanidade rumo à construção do socialismo”, concluiu Buraco no ato que arrebatou fortes emoções na segunda noite do congresso.

Por Carla Santos

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